Onde tudo começou
Eu tinha 8 anos de idade quando o meu pai me levou pela primeira vez no Relais de Venise, boulevard Pereire, para comer o famoso entrecôte. Umas semanas antes do Natal, estávamos juntos procurando um presente para minha mãe na extinta Drugstore do Rond point dos Champs Elysée, me lembro como se fosse hoje.
Se não me lembro o presente que a minha mãe ganhou naquele Natal, não me esqueço da propostas que ele me fez e a referência que usou para me introduzir o já ícone da bistronomia parisiense.
– “Vamos almoçar no restaurante que serve só entrecôte com batatas fritas. Vamos ver se é tão bom quanto da sua mãe.”
Eu não era diferente de qualquer outra criança em redor do mundo. Meu prato preferido era um steak bovino com batatas fritas.
A única diferença é que na França existe a tradição familiar de, pelo menos uma vez por mês, o “Entrecote de Domingo”. Esse corte de carne de contra filet acompanhado do molho secreto da família e de batatas fritas. O molho é muito importante por ser umas das grandes caracteristicas da nossa culinária.
Pois bem, a cozinha da casa francesa se diferencia das outras pela sua maestria e tradição na elaboração de molho para acompanhar todos os pratos. Por isso que o pão acompanha todas as etapas das refeições, para que se possa xuxar e provar os molhos.
Na familia Anquier, o molho do nosso Entrecôte é conhecido e intitulado de “Sauce de Má Tante Nicole”, em referencia a minha Tia Nicole Gaignier, irmã do meu Pai que herdou a receita deste molho do meu bisavô.
Foi a minha Tia Nicole que repassou a receita para minha mãe que por sua vez repassou para mim. Adorei a experiência vivida no Relais de Venise com o meu pai principalmente pelo fato de que as batatas vinham à vontade, o que em casa isso dificilmente acontecia.
Com meu irmão Loïc contávamos quantas batatas cada um tínhamos no nosso prato quando a minha mãe nos servia. Dava ate briga. Imagina então o impacto que foi para mim poder comer batata fritas até explodir a barriga e sem o olhar de inveja do meu irmão casula.
Apesar de ficar pirado com as batatas infinitas, vale lembrar que o molho do Relais de Venise estava bom, mas não igual ao da Tia Nicole. Sabe, também é tradição em Paris de que o melhor molho é sempre o da nossa casa. Os outros dizem a mesma coisa a respeito do molho de suas casas, afinal a receita original da família da gente é sempre melhor que da família dos outros né?
Da França ao Brasil: a inspiração e a decisão
O tempo passou, e eu com minha personalidade inventiva e inovadora queria trazer para o Brasil, país que considero minha casa, essa paixão familiar que tanto fez parte da minha vida. Não teve dúvidas e resolvi abrir o “L’Entrecôte de Ma Tante” o meu primeiro Entrecote na cidade de São Paulo, na Rua Dr Mario Ferraz, 17-Jardim Europa.
No nome, a palavra “Entrecôte” tinha como objetivo de acordar no emocional da clientela a lembrança do Relais de I’ Entrecote na rue Saint Benoit em Saint Germain des Prés em Paris ou na rue Marboeuf ao lado dos Champs Elysées. “De Ma Tante” era uma homenagem a minha Tia Nicole e sua receita de molho secreto realmente familiar me permitindo realizar o sonho de ter um restaurante coerente com minha imagem de cozinheiro de casa.
Acertei na mosca. Foi um sucesso desde de a primeira semana de abertura em Julho de 2009. Tudo foi pensado nos mínimos detalhes, desde o arquiteto escolhido, o baiano David Bastos que foi responsável por desenhar e criar um lugar que tivesse a minha cara; moderno, colorido e luminoso, com elegância clássica, aconchegante. Até os funcionários que absorveram meu jeito de ser, tratando todos os clientes com receptividade e acolhimento.
Cada item que compõe o menu foi sempre pensando na experiência gastronômica. Começando pelo pão que instiga o seu paladar a receptividade para tudo que vem depois. A salada de folhas verdes e nozes surpreende pela simplicidade, pelo imenso prazer gustativo que ela proporciona por causa do molho tipicamente da casa de família francesa.